
Lá estava eu admirando os rodopios no salão. Eram incansáveis aqueles belos corpos, habitados por jovens espíritos, se remexendo harmoniosamente aos mais variados sons: salsas, boleros, merengues, xotes etc. O ritmo não importava, o que não podia acontecer era a música parar. Assim estavam eles, leves, quase flutuantes, marcando dois pra lá e dois pra cá.
Fui abduzida por toda aquela vitalidade que, às vezes, surpreendia pela extensa cronologia que suas almas carregavam. Talvez esta leveza não correspondesse em nada com os muitos anos de vida que cada um daqueles(as) senhores (as) acumulavam através do tempo. Suas histórias de vida já pesavam 60, 70 e mais de 80 anos. Nada disso os impedia de voar; deslizavam naqueles tacos de madeira, cheios de vida e esquecimentos. Sim, porque ali só cabiam as alegrias. Tudo o mais que fosse necessário precisava ser esquecido.
Lindos casais!
As saias, meio cafonas e cheirando a guardado, esbanjavam volume naqueles fartos cortes godês.
Pensava eu sobre suas histórias de vida, suas perdas; será que eram solitários?
Mas, em dado momento, nada mais disto importava. Só queria beber daquela fonte de jovialidade. Pensei: será que precisamos envelhecer para reconhecermos o que de fato nos faz felizes? E até lá? Permanecemos míopes?
Vim embora não só com o corpo requisitando música, movimento, mas também com fome de vida. Eu quero agora aquela alegria! Quero tudo o que a vida puder me oferecer. Quero saber aceitar o bolero mesmo querendo samba. Quero aprender que a vida muda de ritmo sem nos pedir licença, e também que podemos pedir, em alguns momentos, para a banda tocar nosso ritmo preferido.
Estou construindo a trilha sonora da minha vida a cada instante, e aquele momento, aquele baile, aquelas vidas acrescentaram melodias revigorantes.
Sou grata por cada centelha de vida doada naquele salão.
Vim embora e sonhei dançando...
Assim queria continuar experimentando a vida, sempre acompanhada de uma maravilhosa trilha sonora.
Abramos nossos corações para infinitas melodias...